Compreendendo a devoção ao Sagrado Coração de Jesus


A cada fim de outono - geralmente em junho - celebramos a solenidade do Santíssimo Coração de Jesus e nos aproximamos da terna misericórdia e do perdão do Senhor. Poeticamente, o coração é um símbolo do centro humano - nossas emoções, amores, paixões, desejos, a força da vontade. Nos Evangelhos, o coração de Jesus se comove com pena das multidões (Mateus, 9:36) e Ele nos diz que é manso e humilde de coração (Mateus, 11:29). O Sagrado Coração de Jesus, que começou a bater no seio da Santíssima Virgem há mais de 2.000 anos, ainda hoje bate na humanidade glorificada de Cristo Ressuscitado. E pulsará para sempre, transmitindo a graça, a misericórdia e a vida de Deus para toda a humanidade. No Coração do Senhor, experimentamos a misericórdia avassaladora de Deus e Seu desejo infinito de estar em relação conosco.

Ao longo dos séculos, muitos cristãos desenvolveram imagens duras de Deus e Jesus como juízes temíveis, distantes dos assuntos humanos, prontos para impor punições por falhas morais. A Bem-Aventurada Virgem Maria e os santos tornaram-se os intercessores amigáveis ​​e acessíveis que iriam a Deus por nós, implorando pelas almas pecadoras e errantes. Trespassado e crucificado - oferecendo salvação e misericórdia - o coração de Jesus anseia que ofereçamos nosso amor e devoção em troca. Se algumas formas distorcidas de espiritualidade se concentravam apenas na punição de Deus, o Sagrado Coração enfatizava a misericórdia. Se muitos cristãos temem a Deus de maneira desordenada, aqui o amor e a alegria divinos se manifestam. Se antes Jesus parecia distante e inacessível, o Sagrado Coração nos convida a entrar na fornalha divina da caridade.

Como nos lembra São João, Deus é amor, Aquele que se esvazia pelos outros, desejando a nossa salvação eterna, procurando os perdidos e levando para casa as ovelhas errantes. Todo o evento de Cristo é uma missão de misericórdia, pois o Filho, em obediência radical ao Pai, se encarna em nossa carne - pregando o Evangelho do Reino, curando os enfermos, perdoando o pecador, alimentando os famintos e, finalmente, oferecendo Sua vida na cruz. Cada palavra, ação, gesto e atitude de Jesus manifesta um amor perfeito, puro e altruísta por cada pessoa. Se amar significa desejar o bem do outro, totalmente livre de interesses próprios, vemos a perfeição dessa caridade no coração ardente de Cristo.


Para que não pensemos que tal amor é ingênuo, simplista ou fácil, o Sagrado Coração brilha, coroado de espinhos, trespassado e sangrando. A crucificação de Cristo é o caminho aterrorizante através do vale das trevas e do mal que o próprio Deus percorre, abraçando tudo o que é pecador, quebrado e morto que nos enreda e destrói. Permanecendo em silêncio diante de Seus perseguidores, orando por Seus assassinos, amando um ladrão moribundo e pedindo perdão pelos pecadores, Jesus mostra que o amor incondicional, infinito e divino de Seu coração é a única força que pode curar o mundo de seu ódio, pecado e rejeição de Deus. Ao tomar sobre si a totalidade do mal humano cometido por cada pessoa de todos os tempos, Cristo afasta essas trevas avassaladoras na luz da Ressurreição.

Em um discurso aos bispos italianos, o Cardeal Joseph Ratzinger certa vez disse desta forma: “O que Jesus prega no Sermão da Montanha, Ele o faz agora; Ele não oferece violência contra violência, como poderia ter feito, mas põe fim à violência, transformando-a em amor. O ato de matar, de morte, é transformado em um ato de amor. Diante da violência infindável e terrível do terrorismo, dos fuzilamentos em massa, dos abusos de todos os tipos e de um profundo desrespeito pela santidade da vida humana, nossa sociedade contemporânea só encontrará esperança, cura e paz por meio do Sagrado Coração de Jesus Cristo.

Assim, honrando e exibindo imagens do Sagrado Coração, somos convidados a experimentar o amor de Jesus. Não podemos contemplar uma imagem tão santa e misericordiosa com indiferença ou ingratidão. Um olhar para o coração de Jesus deve nos derreter, nos converter e nos inspirar a retribuir nossos corações. A devoção ao Sagrado Coração não é mágica ou alguma passagem automática para o céu; é um caminho sagrado para encontrarmos a plenitude do Evangelho, a boa nova do amor salvador de Deus derramado por nós em Jesus Cristo. À medida que progredimos continuamente em nosso conhecimento e comunhão com o Senhor, nos apaixonaremos cada vez mais profundamente por Jesus e viveremos esse relacionamento transformador e redentor em cada detalhe de nossas vidas. Essa devoção une nossas mentes, corações e vontades em um grande ato de oblação - um dom total de si mesmo para Aquele que primeiro se ofereceu completamente para nós.

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